Depois da Urca.

“Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm(…)”

A culpa é toda sua.
Todas as suas escolhas ou falta delas.

Mas que bela merda, você pensa – quando tem um tempo livre pra pensar em outra coisa que não seja como resolver algum problema, ou fugir de outro que está por vir. E pior ainda que a existência deles, é saber ali no fundinho, escondidinho, quando ninguém te vê e você está cansado demais pra fingir pra você mesmo que nunca foi covarde, que a culpa é só sua.

Não é a índole alheia, não é a vida cruel, não é visão ingênua e romantizada que você acha que eu tenho. A culpa é sua mesmo.
O relacionamento infeliz que você podia não ter entrado ou já ter saído. Ou sair agora.
O emprego que te estupra a alma e faz você ver a vida indo embora por uma janela só pra pagar as contas dessa sua vida tão difícil e filha da puta.
A amargura sublimada, transformada em futilidade e maledicência.
A mudança e libertação que são possíveis sim, e você não tem culhão de assumir.
É tudo culpa sua.
Você é covarde, se rendeu e se alimenta da mediocridade.

Mas é tão mais fácil se ver jogado e indefeso num karma sem fim, acreditar que a vida adulta é mesmo uma luta injusta, que eu falo essas coisas porque a minha vida é tão mais fácil. Minha vida te parece fácil? O seu caráter a mim também. Mas na verdade, eu soube apenas escolher melhor que você.

E se ajuda, se faz alguma diferença, vou te contar um segredo: ainda dá tempo de ser feliz.


Toca Raul!

Eu gosto de algumas poucas coisas de Raul Seixas. Mas as que gosto, gosto muito.

E essa música, eu acho do caralho.

O sol da noite agora está nascendo
Alguma coisa está acontecendo
Não dá no rádio nem está
Nas bancas de jornais
Em cada dia ou qualquer lugar
Um larga a fábrica, outro sai do lar
E até as mulheres, ditas escravas,
Já não querem servir mais
Ao som da flauta
Da mãe serpente
No para-inferno
De Adão na gente
Dança o bebê

Uma dança bem diferente
O vento voa e varre as velhas ruas
Capim silvestre racha as pedras nuas
Encobre asfaltos que guardavam
Hitórias terríveis
Já não há mais culpado
nem inocente
Cada pessoa ou coisa é diferente
Já que assim, baseado em que

Você pune quem não é você?
Ao som da flauta
Da mãe serpente
No para-inferno
De Adão na gente

Dança o bebê
Uma dança bem diferente

Querer o meu
Não é roubar o seu
Pois o que eu quero
É só função de eu

Sociedade alternativa
Sociedade novo aeon
É um sapato em cada pé
É direito de ser ateu
Ou de ter fé
Ter prato entupido de comida
Que você mais gosta

É ser carregado, ou carregar
Gente nas costas
Direito de ter riso e de prazer
E até direito de deixar
Jesus Sofrer


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