Vivo um daqueles momentos da vida em que olhamos ao redor e pensamos: está tudo perfeito. Não falta nada.
Na verdade falta, mas é uma falta irremediável: ontem tudo que eu queria era abraçar meu avô.
Lembro imediatamente de 1995, final do Campeonato Carioca. Eu estava chegando do colégio e o jogo havia começado. De uniforme, larguei a mochila e o tênis no canto da sala, e acompanhamos juntos pela televisão aquele jogo angustiante. Juntos, pulamos gritamos e festejamos a cagada ímpar do Renato Gaúcho.
Ano passado, menos de uma semana antes de falecer, ele me ligou no dia seguinte da final da Sulamericana:
-Quase deu, hein?
E aquele teria sido o último telefonema que recebi dele.
Poucos dias depois do não-rebaixamento que comemoramos aliviados, seu cansado, lutador, generoso e enorme coração cansou.
Tenho hoje o Snoopy tricolor que ele comprou pra mim, pendurado no meu mural, como uma espécie de proteção e saudade gostosa constantes.
E eu juro, acima de todas as crenças espiritualistas ou não que me cercam, que ele esteve comigo por esses dias.
Sabe o sufoco dos ingressos?
Pois bem. Desde a segunda-feira, dia 29 de novembro, as pessoas já dormiam na fila.
Mas eu não sabia, pois bem cedinho, fui pra Búzios. Dias de Sol, descanso, sono profundo, pizzas gostosas, cerveja e peixe à beira-mar. Ficamos lá, eu e meu namorado, segunda, terça, quarta…e na quarta, dia da venda dos ingressos, voltamos. Na volta, de tardinha, ainda paramos num japonês em Niterói, em frente à praia de São Francisco. Quarta dia 01 de dezembro, aniversário do meu avô. Primeiro aniversário dele… sem ele.
Cheguei em casa, tomei meu banho, e a essa altura a notícia era de que já não havia mais ingresso algum à venda. Conformava-me com a extorsão de cambistas por vir. Lá prumas 19:00, saiu na internet a notícia de que um novo e pequeno lote havia chegado ao engenhão. Mas na mesma notícia, contava que a bilheteria fecharia às 21:00. Ir ou não ir, eis a questão!
E fui. Meu namorado (que era tricolor não praticante até minha presença em sua vida haha) foi quem me incentivou e veio me buscar. Me arrumei desesperançosa, afinal, esse lote seria engolido por quem já estava lá.
E então, enquanto saía do meu prédio e ia até seu carro, veio na cabeça: “Você vai conseguir. Hoje é aniversário do seu avô.”
Trânsito livre.
Fila zero.
Stress zero.
E ainda por cima, meias-entradas à venda.
O sutil, suave, óbvio e cheio de amor… milagre.
Veio o dia. Preparei-me, como noiva supersticiosa, com todos os patuás, amuletos e símbolos de sorte e proteção.
Anel dado pela mãe, blusa pelo namorado, sapato que comprei numa viagem maravilhosa, passei um hidratante dado de presente por uma grande amiga, e claro… o toque final, a aura, o perfume…dado pelo meu avô.
Se eu passei por algum desconforto pra ir a esse jogo, foram 15 minutos ao Sol esperando os portões se abrirem.
E abrem-se os portões, deixando à mostra o último pedaço de estrada a ser percorrido rumo à glória.
Medo, ansiedade e barriga gelada anternavam-se com o encantamento pela linda festa que aos poucos se formava no estádio que enchia tão rápido como as ruas que ficariam alagadas horas depois.
Vieram na minha cabeça às trágicas e heróicas finais da Libertadores e Sulamericana. Não, aquilo não poderia se repetir. E minha porção de razão, sufocada e quase muda num maremoto de emoções, disse, tímida: O Fluminense não perdeu pra LDU. Perdeu pra altitude. Nos jogos no Rio, casa cheia, o Flu foi indiscutivelmente superior.
Meu medo, na verdade, eram as tais malas brancas, as cagadas de arbitragem que o Simon já havia feito antes.
Primeiro tempo encruado, esperávamos todos famintos, obcecados por um gol.
Nada.
Ai meu Deus, ai meu vô, ai meu amor! Dos três que chamei, o último, percebendo meu desespero, se manifestou me abraçando:
-Fica calma. Vai dar tudo certo. Já ganhou.
Das pessoas com fone de ouvido ao redor vinham as notícias: Goiás saiu na frente, Cruzeiro também, Cortínthians empatou. Eu estava numa montanha-russa emocional.
Segundo tempo, jogadores voltam visivelmente com mais fome de bola ainda, e a última coisa que qualquer um ali dentro ou fora de campo queria, era contar com o resultado dos outros. Era tão certo e palpável que o gol viria, mas ele insistia em nos fazer esperar.
Minutos antes, me veio a cabeça: Vai ser do Emerson.
Vô? Você tá me dando cola?
E veio. E foi dele. Jogador, aliás, que eu sempre desejei a volta mais do que qualquer outro.
Gritei, perdi a voz, aquela era a confirmação do título.
A libertação, redenção, o cala boca pra tanta gente agourenta.
Aquele gol, milimetricamente calculado, entre 4 pernas, era sofrido, guerreiro, humilde, e ao mesmo tempo extremamente humilhante e vexativo ao adversário. E assim o deveria ser. A corrupção, a desonestidade, a tentativa de comprar um sonho de 26 anos com uma mala de dinheiro, têm mesmo é que ser ridicularizadas.
Ainda assim, não parava de perguntar às pessoas ao redor os resultado dos outros jogos.
E veio então o apito mais esperado dos últimos 26 anos.
Me time era campeão. Nosso. De tantos.
Vô, eu te amo.
