Dos dias feitos p’reu ser feliz

Os dias frios chegaram.

A brisa gelada no almoço e os passos que buscam o lado da calçada que bate sol trazem de volta o sorriso sem motivo.

Outono chega sempre gargalhando na cara de quem só sabe ser feliz no calor. Não é sacana, apenas sabe seu tempo.

Ontem à noite saía fumaça da boca de quem conversava no Alto da Boa Vista. O vapor falado me tira o peso dos olhos e acarinha a alma.

É que eu e o Outono temos piadas internas. Somos amigos há muitos anos, e há quem ache até que somos amantes. Eu não desminto. Nem confirmo.

A gente já fez muita coisa junto: viagem, passeio, música, comida, verso, pintura e amor.

Todo ano eu brindo, todo ano eu saúdo,  todo ano ele me faz reinventar nossa história, sob nova ótica, arquitetada com novas palavras, inundada de novos encantos que eu ainda nem sabia existirem.

 

Tem gente que aproveita o ano-novo para recomeço e novos planos.

Eu uso o Outono.

Tem gente que busca as melhores memórias na infância.

Eu as acho no Outono.

Tem gente que procura a alma gêmea.

Eu já achei a minha.

É o Outono.

:)

“Tornar-se adulto, porém, é descobrir que o baralho nunca estará completo, que nem mesmo existe um baralho completo. Temos de jogar com as cartas que temos. E tentar recuperar cartas que jamais existiram, como se elas estivessem apenas perdidas, não nos ajuda a viver melhor. Apenas nos congela em um lugar infantil.”

 

Por essas e outras que eu sou fã da Eliane Brum.

 

 

Porque um dia senti assim.

A saudade, outrora Tango, agora é Bossa. Canta as alegrias de um amor passado, sem drama, com dor poetizada e passividade diante do desfecho inevitável e imutável.

A saudade, outrora gasolina pra aproximar e reduzir distâncias, agora se cala, senta resignada e observa o abismo que nossos erros cavaram a perder de vista; respira fundo e olha o horizonte, pois o Sol já vai nascer.

Mas em algum lugar da estratosfera, dos contos fantásticos, das cachoeiras, pizzarias e pousadas que têm como nome o nosso apelido, uma versão nossa vingou. Existe um seu e uma minha que se entendem e dão as mãos diante das diferenças, pulando juntos os obstáculos.

Esses dois conseguiram dar um bico no ciúme, na sombra nefasta das separações e calaram a boca do orgulho direitinho.

Talvez não viajem tanto, talvez jantem menos fora. Mas quando se deitam, sempre juntos, jamais viram um para cada lado.

A posse e o apego se esfarelaram diante de obviedade de que a vida segue, e nós somos feitos de instinto e desejos múltiplos, que coabitam corpo e mente.

A gente merecia ter sido mais feliz.

Mas não foi.

Esse amor saiu de cena, recitou Pessoa e descansou.

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

“It’s what we do with what we feel”

“É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer
É bom olhar pra frente, é bom nunca é igual
Olhar, beijar e ouvir, cantar um novo dia nascendo
É bom e é tão diferente”

tô viva!

de novo Livia

livre

e por que a gente se cega?

por que a gente nega

e tem medo do novo?

escuto enfim meu coração

ele não bate só

bate junto a alma

vem junto a calma

banhada de alegria

que me diz: sorria

você está sendo levada

pra onde ainda não existe

pra onde já devia ter ido

pra onde se constrói a cada passo que dou

eu escolho

eu nunca mais me encolho

diante de nada nessa vida

eu falo, me imponho, sonho e me conheço

não calo, me exponho, componho, me viro do avesso

cresço

a cada segundo me agiganto mais

essa sou eu

essa que tem paz

essa que tá

feliz demais.

O dia em que tudo mudou

Eu nunca quis ser mãe.

Nunca fui aquela mulher que desde criança sabe que quer ter filhos e passa a maior parte do tempo brincando de casinha.

Eu sempre quis ser escritora, viajar o mundo inteiro e ter ao meu lado um homem de alma livre e muita fibra. Filhos poderiam vir ou não. Se viessem, seriam benvindos (ARGH, nova ortografia). Se não, eu seria feliz também.

E confesso, sempre gostei mais de bichos do que de crianças.

 

Aí, papo de uns 2 meses atrás – Paula Toller e Martin Luther King que me perdoem- eu tive um sonho.

Um dos mais lindos que já tive, senão o mais. Nele, meus avós, já falecidos, traziam meus filhos pra eu conhecer.

Isso mesmo. Dois pitocos lindos, de seus 2 aninhos, com traços parecidos entre si. O bonitão, mais branquinho e de cabelo escuro. A princesinha, pele mais morena e cabelos castanhos escorridos. E eu pegava cada um deles no colo, abraçava, beijava, olhava no espelho e reconhecia neles os meus olhos pequenos. E fui tomada por um amor sem igual, que só de escrever isso meu olho já enche d’água.

Depois, vovó e vovô pegavam cada um deles no colo, sorriam, me abraçavam, e levavam de volta.

Seja Freud, seja Deus, o que quer que tenha me trazido esse sonho, obrigada. Agora eu já quase sei o que é o maior amor do mundo.

E na hora que for… será.

Sem pressa, sem atraso.

 

 

 

Enquanto isso, planejo apenas minha próxima viagem pra Semana Santa. =)

Sol, sorvete de pistache e saudade de mim.



O pôr-do-sol não tinha sido cor-de-rosa. O dia despedia-se simplesmente perdendo a luz, e conversávamos, eu e uma grande amiga. Foi um sábado de acordar muito cedo pra encarar o longo caminho até aquele cantinho que quase ninguém do Rio tem disposição. E como amigas têm amores em comum, um dos nossos são as praias e lugares charmosos de Niterói. As horas voaram em Itacoatiara, com direito uma passada no Parque da Cidade na volta, e, depois de um strogonoff de camarão na Jurujuba, fechávamos o dia com chave de ouro em uma sorveteria de frente pro mar em São Francisco.

E nesse papo, dividimos a constatação da liberdade e proteção que a maturidade traz. Quando amadurecemos – e por amadurecimento leia-se o clichê “aprender com os erros” – a gente sabe muito bem o que quer. A maturidade abre as portas pra nós mesmos, pro o vale das coisas que são pra gente. O auto-conhecimento é quase um GPS: se for fraco, te leva pros lugares mais errados e perigosos; quando em sintonia fina, é só alegria, caminhos certos, atalhos seguros e alerta pros pardais.

Outra coisa que falamos, foi da retomada das nossas coisas pra gente novamente. Redundante? Confuso? Contextualizando: Você tem seu mundinho de coisas favoritas. Um dia, conhece alguém que compartilha milhões desses favoritismos com você. Aí vocês namoram. As coisas que eram “minhas” viram “nossas”, muito nossas. Fim de relacionamento, e você lembra toda hora da pessoa por simplesmente estar vivendo a sua vida. Até que cai a ficha, e vem aquela redenção profunda que só um palavrão pode reproduzir: tomanocú.

Vivemos, eu e minha amiga, em paralelo, essa reconquista do auto-território. As coisas minhas voltaram a ser minhas. As dela, idem, acompanhadas das novas coisas que fagocitamos pro infinito particular. Já não somos mais as mesmas, e isso é viver.

Que venha o tempo, a seu tempo, com todas as delícias que o saber esperá-lo, vivê-lo, entendê-lo e respeitá-lo trazem.

As coisas minhas nunca mais deixarão de ser minhas.

O dia tava muito bom, as as cadeiras da sorveteria nos abraçaram e puxaram a veia questionadora da alma.

E no final das contas, Niterói continua me fazendo sempre muito bem.

ao ego, sem orgulho

“Existe a necessidade absoluta de se sentir desejado; e neste círculo do desejo é muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam, o que é uma das grandes tragédias do ser humano.”

a quem tem coragem

Penso como vai minha vida
Alimento todos os desejos
Exorcizo as minhas fantasias
Todo mundo tem um pouco de medo da vida

Pra que perder tempo desperdiçando emoções
Grilar com pequenas provocações?
Ataco se isso for preciso
Sou eu quem escolho e faço os meus inimigos

Saudações a quem tem coragem
Aos que tão aqui pra qualquer viagem
Não fique esperando a vida passar tão rápido
A felicidade é um estado imaginário

Não penso em tudo que já fiz
E não esqueço de quem um dia amei
Desprezo os dias cinzentos
Eu aproveito pra sonhar enquanto é tempo

Eu rasgo o couro com os dentes
Beijo uma flor sem machucar
As minhas verdades eu invento sem medo
Eu faço de tudo pelos meus desejos

Saudações a quem tem coragem
Aos que tão aqui pra qualquer viagem
Não fique esperando a vida passar tão rápido
A felicidade é um estado imaginário

tudo que há pra viver

-Livia, você tá VIVENDO?

E foi com essa perguntinha simples que a minha terapeuta me nocauteou. Apesar de não estar com nenhum grande problema, e tudo ao redor estar calmo e dando certo… tinha uma merda de um peso, uma lágrima encubada, uma fuga de sei lá o que, que me fazia sorrir menos. E eu não via. Tipo quando alguém desliga alguma coisa, e aí você percebe que tinha barulho, e como o silêncio é bom. O barulho não era tão alto ou irritante a ponto de não te deixar dormir. Mas perturba devagarzinho, na encolha e constantemente.

Escolhi desligar.

Pra começar, depois de passar uns 2 anos só fazendo especializações profissionais, me dei uma folga. Agora eu acordo mais cedo, corro na praia todo dia, mergulho, pego 15 minutos de sol e venho trabalhar. Agora, enfim, estou aprendendo meu tão sonhado violão. Voltei a escrever, a perceber as poesias ocultas nas cores e sombras dessa vida. Agora digo mais “não” e digo mais “sim” também.

E todas as coisas boas que já estavam acontecendo pra mim têm agora muito mais tempero. E eu, muito mais fome.

Essa aí sou eu, ontem, clicada de longe pela Dani =)

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