.
Há 3 anos eu trabalho na Barra.
O trajeto é longo, e por vezes desesperador por conta do engarrafamento.
E aí eu tive que me virar. Pros lados, pra cima e pra baixo, procurando qualquer coisa que me agradasse os olhos.
No começo eu me encantei com a imensidão do mar do Joá, como um abraço azul escancarado a me saudar todos os dias.
Não entendia como tanta gente dentro do ônibus conseguia não olhar, não entortar o pescoço ao passar por ali.
Eu ficava realmente furiosa quando não conseguia lugar na janela do lado esquerdo, pois seria um dia sem mar. E eles eram sempre menos alegres.
Na época fiz até um texto e um vídeo sobre o mar meu de todo dia no antigo blog.
Porém, com os meses quase virando anos, e o trânsito piorando grosseiramente, o Joá não era mais a principal atração das minhas manhãs, e eu procurei outra.
Passou a alegrar os primeiros minutos do meu dia, então, o gari com quem comecei a esbarrar freqüentemente na frente da igreja, a caminho do ponto de ônibus. Um senhor magro, pele curtida de sol, cabelos algodão e uniforme largo. Qualquer mal humor, preocupação ou tristeza que acordassem comigo, amoleciam quando iam de encontro à voz firme e afinada entoando melodias antigas, daquele tempo em que moços tiravam moças pra dançar. E dissolviam-se completamente, explodindo numa risada discreta quando me chamava diariamente de princesa gigante.
-Bom dia, e bom trabalho! – respondia eu sorrindo e acenando.
Não sei onde ele canta e varre agora. E sinto falta. Sumiu simplesmente, aposentadoria talvez.
E aí entrou em cena o vendedor de balas. Assim, do nada. Todo dia, na mesma hora, no mesmo ponto junto comigo. Com uma blusa com o nome da associação de trabalhadores de Botafogo tingida a Spray. Ele era muito, muito falante e engraçado, e eu ria muito sozinha. Não falava comigo, nem eu com ele. Mas tinha sempre algum conhecido dele presente, com quem ele tagarelava.
Me admirava o bom humor de quem se depara com um dia imenso de um trabalho nada fácil pela frente. Às vezes entrava no mesmo ônibus que eu, vendia suas guloseimas, e prendia a atenção de todos com tamanha desenvoltura que tinha. Um dia, ele conversava agitado com um amigo sobre uma vizinha dele que viajou pra “Orlanda”, voltou falando três idiomas e agora estaria com a vida ganha. Disse que ele mesmo é que tinha que fazer isso também, que ia se mandar pra “Iolanda”, ganhar em euro, voltar com dinheiro, falando inglês, espanhol e francês, e aí ia conseguir um emprego bom. E entre repetidos ”Orlanda”, e “Iolanda”, o amigo corrigiu:
-Que Orlanda, cara. É Holanda.
-Ah, sei lá, Orlanda, Iolanda…tudo a mesma coisa. Sei que eu vou pra lá.
Sumiu. Será que foi? Se foi, se deu bem, aposto.
Fez-se janeiro mais uma vez, e eu me encantava simplesmente com o trânsito livre por conta das férias de muita gente. Voltar pra casa em 45 minutos é a glória.
A Barra, que eu odiava, agora já me arrancava percepções novas e admiração pelas ruas largas, limpas, arquitetura harmoniosa, e natureza menos devastada que a Zona Sul.
Em Janeiro eu tiro mais o carro da garagem, e os 45, viram 30 agradáveis minutos de ar condicionado, músicas preferidas, e pessoas mais equilibradas dirigindo por aí.
Em Janeiro, o Sol que reflete o espelho do carro às 7:30 da manhã ilumina até a alma.
E agora, meu novo encanto reside onde nos recomendavam sorrir, pois estávamos na barra. Ali, no canal de Marapendi acontece todos os dias uma das cenas mais delicadas e emocionantes que a natureza já me proporcionou. Bem cedo, antes das 8, reúnem-se dezenas de pássaros na pequena faixa de areia e ficam todos ali, quietinhos, imóveis, enfileirados, de pé, de frente para o sol, sabe-se lá por quanto tempo protejando compridas sombras na direção das casas. Eles são brancos, com bicos pretos.
Quando percebi esse comportamento deles a primeira vez, foi sei lá…um jato de ternura no peito. Bonitinho demais. Instantameamente lembrei de Fernão Capelo Gaivota. E só é possível ter essa visão quando se está de ônibus, por cotna da altura da mureta do viaduto. Minha vontade é sempre descer, quebrar minha rotina, andar até ali e me deixar ficar ali horas contemplando isso. Fotografá-los, entender de onde tiram aquela paz que os envolve e protege das buzinas e motores de carro e ônibus. Todo dia me prometo que essa semana faço isso.
E ainda dá tempo de olhar pro outro lado, e ver o que pra mim é um dos cantinhos mais bonitos do Rio de Janeiro. O comeciiiiiiiiiiiinho da praia da Barra, onde as águas do canal se juntam com o mar, criando então, um tapete turquesa, líquido e translúcido.
A vida sempre dá seus jeitos, e esconde pequenas surpresas e alívios ao lado do caos diário.
Jorge Ben diz: “Quem quiser amor, que se aproxime dele”.
E eu digo: Quem quiser ver o belo, que procure em todos os lados. A primeira impressão é sempre a mais errada.




